terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Fragmento

" Quero uma droga que me devolva o sono,
  No sono o sonho...
  De acordar como quem nunca houvera dormido."
                                            ( Leo Rocha )

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

ps: sobre o texto abaixo só tenho uma coisa a dizer:
 " Viver assim é um absurdo como outro qualquer, como tentar o suicídio ou amar uma mulher"
                                                                                         ( Engenheiros do Hawaíí )

crônica

   O homem que não sabia chorar.
 Andava com passos apressados, havia passado o dia no escritório e tinha medo de perder mais alguma coisa. A gravata o sufocava, os sapatos o incomodavam, mesmo fora do trabalho se sentia sobrecarregado. Mas não havia problema, era uma sexta à noite e, como toda sexta precede ao sábado, ele poderia relaxar, tomar um chope talvez... O pessoal do trabalho o ignorara, ele sempre foi o estranho, o caladão, o que usa óculos, mas isso não impediria o seu chope, suas sextas à noite poderiam ser muito interessantes sem o happy hour. Não, estar com os colegas de trabalho seria maçante, seria o comum, ele estava precisando de algo diferente, uma coisa realmente desafiadora, uma aventura fora do casamento talvez... Seu casamento ia mal e ela não saberia.
    Seguiu como num plano perfeito, tirou a aliança, pegou um táxi e se dirigiu para a zona sul. Depois de caminhar um pouco imaginando mil situações, escolheu uma boate, não a melhor, queria ser discreto e ter a certeza de que estava num lugar que jamais voltaria. Entrou, todas aquelas luzes, aquela música, era como se estivesse entrando em um mundo novo, como se por alguns instantes pudesse resgatar os últimos dez anos perdidos em meio a papéis e encanamentos domésticos fracassados, mas não durou muito e logo o clima de magia se desfez. Relutou consigo, aquilo não era ele, boa parte do fracasso de seu casamento se devia a ele, ele envelhecera mais que o devido, ele não quisera dar filhos à esposa quando ela era fértil.  A vida havia sido cruel com sua mulher, aquela doença havia corroído toda a sua fertilidade e com a fertilidade foi-se também toda a felicidade, não só a dela, mas a dele também, ela o culpava por não a ter lhe dado filhos. Embora nunca tenha dito nada, aquele olhar sempre o acusara, ela recusava-se a se deitar, como se o prazer houvesse se afastado do sexo junto com a reprodução, e no fundo ele se culpava também, sempre preocupado com as contas, sempre esperando um momento melhor, que até então nunca viera. Mas ela não o deixava, se arrastava junto a ele e consigo trazia a infelicidade de uma árvore seca. Decidiu voltar, já era tarde. Havia mãos por toda parte, em varias parte do seu corpo e principalmente nos seus bolsos. Em lugares como aquele, as mulheres são verdadeiras caçadoras e ele, por hora, era a presa. Tentou sair, mas a timidez o dominou, decidiu meio sem jeito ficar mais um pouco. Não faria mal, ficou e depois de muito relutar, conseguiu se soltar daqueles tentáculos, mas não ileso, já era pelas tantas e 3 garrafas de champanhe haviam passado pela mesa, e a conta o deixara sem dinheiro nem para o táxi.
      Já era tarde, teria de atravessar a cidade a pé. Então nosso Ulisses iniciou uma verdadeira caminhada épica de volta pra casa, com direito a todos os perigos que a noite traz. Não andara nem dois quarteirões e já havia sido assaltado três vezes, primeiro lhe levaram o celular, depois os sapatos e por último o terno com aquela maldita gravata que o sufocava. Mas, no fim das contas, há quanto tempo que não se arriscava tanto, realmente essa noite havia sido sua maior aventura nos últimos dez anos. Não podia deixar de perceber, as peculiaridades da noite. É na noite que os animais mais sujos vagam como fantasmas arrastando suas correntes, perdeu a conta de por quantas garotas de programas passou, pegas, acidentes, mortos... Tudo em questão de horas, e quantas janelas acesas, namorados, poetas, suicidas, todos à espera de algo que ele não sabia o que era, mas que também lhe fazia falta, viu varias tribos, os chapados, os velozes, os hippies, os músicos, os baderneiros, os abandonados, e ele, “o exército de um homem só”. O Homem que insistia em estar de pé, que não tinha a cavalaria, que nascera sem charme, sem sorte, sem dinheiro, o mais mortal dos mortais.
Depois de algumas horas, estava chegando em casa cansado, não sabia que desculpa daria, mas não importava, não havia maneira dela o desprezar mais. Eram apenas dois desconhecidos dividindo o mesmo teto, não se reconheciam mais. Mas havia algo estranho,  a rua estava muito movimentada àquela hora, era tarde e muitas pessoas estavam na porta de seu prédio, viu luzes em cima dos carros pensou ser a polícia, mas ao chegar mais perto, viu que era uma ambulância e quando, enfim chegou, viu o motivo de tanto tumulto: era sua esposa estirada no chão, usando a melhor camisola, estava maquiada, parecia ter se preparado para aquilo, a imagem do corpo o chocou, mas logo pensou que ato de covardia ela havia tido, lhe deixara só, não teve coragem de viver com a infelicidade que ambos criaram e agora o deixara de modo abrupto e definitivo, não sentiu pena, nem remorso, pelo contrario irou-se. Não sabia chorar, não chorara no acidente que levou seus pais, não chorara quando perdeu a vaga no time de colégio, não chorara quando perdeu o emprego ou quando ganhou uma promoção, apenas não sabia chorar, dizem que não chorara nem quando nasceu, quando criança, pensaram que ele era mudo e só veio a dizer as primeiras palavras aos sete anos (mas sobre essas informações não há prova de veracidade). Perguntou ao médico dos primeiros socorros o que havia acontecido, e foi informado que ela havia saltado do terraço 12° andar.  Subiu as escadas, ela não tinha o direito de fazer isso com ele pensava, as pessoas o condenariam, agora estava mais só do que nunca, covarde! Covarde! Covarde! Insistia, tinha de tê-lo levado também, não por amor como Romeu e Julieta, mas por lealdade a tantos anos de infelicidade juntos, mas isso não ficaria assim, ela não se sairia tão bem, não seria tão fácil assim se livrar dele.
Entrou na cama, pegou um velho 38 que pertencera ao seu pai, engatilhou e antes de sair encontrou Alfredo, o pinscher que ele odiava, mas ela durante anos insistia em criar e amar, sim ela amava mais aquele cachorro do que a ele, ele havia sobrevivido por puro desprezo, mas o cão havia sido poupado por amor, ela amava aquele cão mais do que tudo, mas logo estariam juntos e o primeiro disparo da noite foi feito em Alfredo.
Desceu o corpo já estava sendo retirado, atravessou a rua já era manha a padaria estava aberta, entrou e disparou 5 tiros contra aquele padeiro gordo que sempre o preteria com relação aos outros clientes, as pessoas corriam sem entender o que estava acontecendo. Regozijou-se naquela sensação, se não o amavam pelo menos agora o temiam. Sentou no balcão e não demorou muito o local estava infestado de policia, mas ele não se entregaria,   queria ser um mártir, as pessoas se perguntariam porque o homem do 321 atirou no padeiro, e isso para alguns iria parecer loucura, mas intrigaria a outros e diriam que ele era um assassino, um messiânico, um revolucionário, um matador de padeiros. Riu consigo mesmo, pensariam que a morte do padeiro está diretamente relacionada com a morte da mulher, dirão que eles eram amantes e, embora lhe sobrasse o papel de marido traído, não o culpariam pela morte dela, ele apenas tinha lavado sua honra com sangue.
A policia tentou dominá-lo, mas ele descarregou o 38 contra os homens da lei e eles revidaram na mesma moeda, dizem que antes de morrer ele chorou de alegria (mas também não se pode atestar a veracidade dessa informação). No outro dia noticiou-se no jornal:  “marido traído mata amante padeiro!” Mas a grande manchete do dia foi: “ pinscher tem recuperação milagrosa depois de ser baleado”.
                                                                          Att Leonam  Rocha