Me deparar com o vazio foi assustador. Me questionei para onde foram
todas as noites, todos os toques, todos os cheiros, todas as bocas,
todos os risos... Numa fração de segundo minha vida inteira estava ali,
bem na minha frente, foi então que descobri que uma vida inteira não é
nada além disso, uma fração de segundo.
Almejei ser livre,
lancei-me no desconhecido, sem medos ou esperanças, era só a sensação
indescritível de ser inteiro pela primeira vez, todo o resto sempre foi
solidão. A solidão que me perseguiu pelas ruas nas madrugadas, que
assolou a minha poesia torta, de corpos que nunca conectaram almas.
Não fico mais apreensivo se o amor não me bate à porta, não sou mais
tão jovem para certas inocências, também não sou velho demais para
tamanho desespero. Ser livre, para mim, sempre foi aceitar a condição
natural de que andar perdido ou seguir o caminho correto não fazem tanta
diferença. A caminhada, as histórias, o acaso são o fim em si mesmo.
Todo homem livre vive do improviso.
Mas hoje, ao me deparar com o
silêncio como resposta para tantas perguntas, tudo que queria era
segurança de uma tarde contigo, te desejando entre os lençóis e depois
rir de piadas que nos contamos milhões de vezes. Porque tudo entre nós
sempre foi muito nosso, nosso demais pro mundo lá fora, nosso demais
pra ser compartilhado com a banalidade das relações tão comuns. Eu só
queria tua mão estendida como quem diz: "eu to aqui. Vai ficar tudo bem,
está todo mundo meio perdido mesmo!"
... E como numa tragédia
anunciada, continuo seguindo em frente, pois por mais que me expliquem
como são tristes os finais, eu sempre amarei os começos.