Ponderações:
O texto a seguir surgiu pela primeira vez quando tinha 14 anos, hoje aos 21 ainda é um texto incompleto, um rabisco, apenas uma idéia. Inicialmente pensei que seria um monólogo, mas achei muito complicado para um ator só realizá-lo, posteriormente me veio a idéia de uma peça teatral com 2 atores. Na época que a idéia surgiu não sabia como escrever uma peça e de lá para cá nada mudou, por diversos fatores, que destaco como vetor principal a minha própria inércia. No entanto a idéia não me saiu da cabeça, e decidi escrevê-la como imagino que seja a escrita dos atos de uma peça. Evidentemente que como já citado e independente de minhas ambições ESTE TEXTO NÃO É UMA PEÇA TEATRAL, por “n” motivos dentre os quais se percebe de logo que é um texto curto e principalmente a falta de talento.
Bem aqui vai um pouco de “anarquia,” espero que um dia a minha escrita chegue à sua maturidade, para que possa dizer que sou um escritor medíocre!
Relatos de um soldado.
Personagens: o guia; o soldado; o anarquista.
Descrição do cenário: O texto se passa num palco quase que vazio, um telão atrás onde ao decorrer do “espetáculo” passarão alguns vídeos e imagens, um muro de papelão, uma mesa grande e sobre ela soldados de brinquedo arrumados de maneira que possam refletir-se no espelho que também estará sobre a mesa.
Primeiro ato: Palco vazio escuro uma luz redonda no centro, um homem de preto entra, fica meio que na penumbra do palco de forma que não se consiga ver seu rosto de maneira clara e nítida.
Primeira cena. O guia (homem de terno preto ou outro figurino a se pensar):
O guia: Estamos em algum lugar do futuro, em algum ponto perdido no arco do tempo, talvez 50 ou 100 anos a frente de seu tempo, talvez esse futuro se assemelhe muito ao seu presente ou há um passado remoto. Quase tudo mudou, exceto aquilo que nunca muda, a cólera no coração dos homens.
Nós evoluímos e nos autodestruímos cada dia mais, as cidades cresceram tanto que se assemelham a verdadeiras selvas, sofremos com constantes crises de energia, o perigo espreita em cada esquina, as pessoas são saqueadas, violentadas e mortas com a mesma naturalidade de sempre.
Os Estados mudaram sua forma de organização política, geopolítica, de governo e globalização, ahh... a boa e velha globalização, um jeito de extinguir fronteiras imaginárias, agora sim somos todos homogênios, a tarefa não é tão fácil, não há como globalizar o que é singular por natureza, embora os homens se tratem como produto, o tratamento não consegue superar o espírito? será, que como dizia Skinner tudo é uma questão de engenheria comportamental adequada? Os milicos continuam por aí, parafraseando Fucolt, vigiando e punindo.
Ainda há os que governam e os que passam fome em todo tipo de nação, congestionamos estradas, criamos vírus, remédios para curar os vírus que criamos e amaras cada vez mais letais. Os cientistas de todo o mundo tentam solucionar os problemas da escassez da água e a inconstância do clima, ondas de calor, eventos naturais devastadores, chvas ácidas, são só alguns dos efeitos de anos de estupro do planeta, pelas gerações que nos precederam. O espírito humano ainda continua inquieto e predador, ao mesmo tempo em que descobrimos soluções para velhos problemas, temos criados novos em proporções infinitamente maiores. É assim que somos! e não nos tornamos, já nascemos Predadores de nossa própria espécie!
Uma guerra acontece, alguns a chamam de a guerra babilônia, outros de a grande guerra, até hoje não houve um caos tão grande em toda a história da humanidade. Enquanto os países armam seus exércitos, guerras civis estouravam em toda parte. Pela nação, pela religião, pela desolação o sangue escorre como um Nilo por todo o mundo. Aviões kamikazes despencam do céu, crianças mutiladas atravessam a rua, mulheres são postas nuas e executadas, milícias realizam uma verdadeira cruzada armada, a ordem é matar para libertar, se não o país, se não uma geração completamente destruída, libertar a alma do corpo, uma fuga de quem não tem mais nada a perder. Os motivos? São sempre os mesmos, ganância e uma grande capacidade de não enxergar com apreço aquilo que não conhecemos, que sequer queremos entender, apenas porque não participamos, não comungamos de mesma idéia e apenas cobiçamos o que reluz. Ah... cobiça, esse demônio que nos corrói desde os séculos mais primevos, antes mesmos de conseguirmos caminhar de maneira ereta.
A Guerra segue com seu terror, o medo vivendo as nossas vidas com suas promessas de futuro incerto. O que faremos amanhã se não houver mais amanhã? o que vem depois que a faca corta a carne humana e os corpos são postos à mesa, como um grande banquete de horror... Milhares já morreram, e milhões estão à mingua, a margem. Mas em meio a tudo isso, ainda há milhares dispostos a morrer por uma causa que não é a sua.
Em meio a tudo isso, um grupo de anarquista prega a idéia de um novo regime de governo, escrevem nas paredes e muros derrubados e destruídos de toda a cidade mensagens cheias de ideologia e denuncia. Como piratas também navegam nas ondas da internet, são difíceis de serem rastreados, mas como a rede é muito grande, eles continuam a pichar pois acham que o impacto visual é maior, é como se a cidade fosse o grande protesto, a essas pichações eles deram o nome de jornal. são como fantásmas aparecem e somem sem destino certo. os demais meios de comunicação estão controlados, encontram-se a serviço dos que os próprios anarquistas denominam de burguêses, esses, se autodenominam liberáis.
Os jornais estão pichados em toda parte, uns os chamam de cavaleiros da esperança, em tempos onde a esperança é um artigo raro, outros os chamam de cavaleiros do apocalipse, meros arruaceiros que enfrentam o governo. É uma época de atitudes desmedidas, de homens sem sentido, o amor não vale nada, os homens não valem nada, há só o desespero.
Cena dois:
(entra o anarquista apavorado e fugindo vestindo roupas maltrapilhas, camisa de Che Guevara, fita vermelha amarrada no braço. Pega sua lata de pichar e escreve no muro de papelão:)
O anarquista: ENSÁIO DE UMA NOTA DE JORNAL: GOTAS DE SANGUE, LETRAS TRÊMULAS E LÁGRIMAS ESCREVEM UMA NOVA HISTÓRIA.
( Ele sai, anda, olha para a platéia com ódio como se eles fossem os culpados pelo seu mundo destruído e brada:)
Viva a revolução! ( sai de cena)
( O soldado então aparece escrevendo e lendo em voz alta)
O soldado: Desde que chegamos aqui vou morrendo aos poucos, vou matando muitos. Sozinho dentro de mim, ouço dizerem que o orgulho de um homem é morrer pela nação.
Não sei se estamos aqui pelo poder ou pela evolução, é matar ou morrer sempre. A cada dia que passa nos parecemos mais como animais, a diferença é que esses lutam por interesses próprio, nós porque alguém disse que tinha de ser assim.
( O anarquista volta por trás do muro de papelão que está no palco e picha: )
ENSAIO DE UMA NOTA DE JORNAL: A AGONIA DAS FAMÍLIAS QUE ESPERAM POR NOTÍCIAS.
O anarquista: estamos perdendo tudo em nome de nada, nossas famílias encontram-se dilaceradas. Minha mãe de tristeza morreu ao ver o caixão de meu pai e meu irmão na sala de casa, todos os dias acompanhava com atenção as notícias da televisão, mas suas cartas nunca eram respondidas, e o governo dizia que a campanha ia bem... Bem ? Eu meu pergunto, como estar bem com balas passando na sua cabeça, arrastando corpos durante dias, que alegria! No lugar de um pai e um irmão, medalhas e indenização, quantificação da vida!
(O soldado aparece armado como se estivesse espreitando o perigo, o cenário escurece.)
O soldado: cada dia que mantenho vivo aumento a esperança de voltar pra casa. Vejo muita gente escrevendo cartas para a família. Eu, já mandei algumas pra minha mãe, não sabemos se quando forem entregues estaremos vivos.
(O soldado sai de cena cuidadoso para não ser emboscado.)
( Volta o anarquista sem camisa e sujo, pecha no muro: )
ENSAIO DE UMA OTA DE JORNAL: A RELIGIÃO IMPULSIONA HOMENS A MATAR.
(O anarquista deixa uma rosa aos pés do muro e sai, apavorado como se estivesse sendo perseguido)
(volta o soldado como se estivesse em batalha, ao fundo efeitos sonoros de bomba e avios, meio cambaleando, meio lutando e meio fugindo ele se arrasta até próximo à platéia numa posição de defesa atira-se ao chão e fica sentado nos pés do palco de frente para a platéia com a alma empunhada, conversa com o espectador.)
O soldado: Nas guerras tento me esconder o máximo que posso, se é que isso é possível. Ultimamente tem havido muitas mutilações, vejo homens sem pernas e sem braços o tempo todo, homens tentando colocar suas tripas com as mãos, eles gritam a noite inteira, pedem para morrer e não morrem, descobri que o inferno é aqui. O cansaço é cada dia mais notável.
Os meus superiores me dizem: Deus está do nosso lado, eles são terroristas, por nossa coragem Deus irá nos recompensar com a vitória, eles nos chamam de infiéis. Sinceramente não consigo enxergar nenhum outro Deus, se não um deus cruel como Ares, um deus que cobre sua cama com a pele dos homens mortos em batalha, Deus nos virou as costas, nos esqueceu a partir do momento em que nos criou e viu que tinha falhado!
( As luzes se apagam )
ENSAIO DE UMA NOTA DE JORNAL: A ALMA DOS MORTOS ASSOMBRA OS SOLDADOS.
(O soldado esta deitado, é noite e ele teme seus pesadelos)
O soldado: A noite o céu é bonito, Nele pelo menos não vejo marcas de sangue, por um instante, parece que estamos bem. Mas não passa de um instante e logo e logo os gritos de desespero e os gemidos fazem-se ouvir.
Não sou um assassino, mas matar está se tornando algo cada vez mais mecânico, é sempre eles ou eu, a noite o fantasma dos muitos homens que matei, os choros das mães que perderam os filhos, das mulheres que fiz viúvas me perturbam e acho que vou enlouquecer.
(O anarquista volta e escreve no muro, no mesmo momento em que é surpreendido pelo soldado que está armado)
O soldado: Fique onde está, e com as mãos onde eu possa ver terrorista!
( O anarquista se vira devagar com um sorriso sarcástico no rosto)
O anarquista: Terrorista? Você tem uma arma e eu uma lata de tinta, quem parece mais terrorista aqui?
O soldado: suas palavras matam muito mais pessoas do que eu.
O anarquista: Aposto que você já matou várias pessoas, deve ter ganhado uma medalha por cada caixão que espalhou nesse país, e ainda o chamam de soldado. Pois eu luto por um mundo que não tenha soldados nem fronteiras em que haja uma divisão mais igualitária, nossa desordem é o futuro, uma desordem que organiza, sua ordem é o passado.
Chega de sim senhor! Não senhor! Sentido! Não faz sentido!
O soldado: será que somos tão diferentes assim, certas coisas não mudam sempre haverá guerras e homens como eu e você, não importa o motivo, tanto eu como você enviamos caixões por esse país a fora. Você mata os meus, eu mato os seus, eu recebo ordens e você diz lutar para mudar o mundo, veja quem está tentando dar ordens? Você acha que pode fazer melhor? Você acha que as pessoas vão te ouvir, você acha que é um cristo, nem ele nos mudou rapaz, é o que somos, predadores famintos, e muitos dos homens que matei eu atribuo a gente como você, Gente que incute nas cabeças das pessoas um mundo que existe, nunca existiu ou jamais existirá, não houvesse resistência, nós chegaríamos, pilharíamos e iríamos embora como uma grande praga de gafanhotos, e vocês aos poucos se reergueriam e pilhariam outras civilizações porque isso independe de mim ou de você, não fomos nós quem estabelecemos as regras do jogo, nascemos assim, não nos tornamos é inerente a própria natureza, por mais que não goste não dá pra mudar.
O anarquista: Acha que entende mais da natureza humana que eu, mais de política e geopolítica, pois te digo amigo, você não sabe nada, você se esconde atrás dessa arma, dessa farda, mas quantos homens você matou com suas próprias mãos, quantos homens que não fazem sentido pra você?
O soldado: estamos em guerra, matar é automático!
O anarquista: então vamos deixar que nosso instinto aflore, não é disso que se trata? Uma questão de instinto? Eu e você e apenas um sairá vivo, e terá de ser morto pela mão do outro, e antes que um de nós morra teremos de olhar e ver quem estamos matando, não meros homens sem rostos ou sem identidades, mas um terá de morrer pela mão do outro e consagraremos esse instinto selvagem.
(o soldado abaixa a arma a deixa cair, e os dois entram em luta corporal até que o soldado consegue sufocar o anarquista)
O soldado: vale a pena matar para viver, mas vale a pena morrer por um delírio? Diga? Sente seus olhos saltando e as vistas ficando escura, agora que seus pulmões estão ficando sem ar, onde está o fôlego da revolução, sente seu coração acelerando, e por mais que se você tente escapar não vai conseguir fugir.
(o soldado levanta, deixa o corpo no chão anda até a mesa, observa os bonecos, que guerreiam contra seu próprio reflexo e o vira para si, se olha e não se reconhece.)
Quem é você soldado? Onde estava? Sentido? Que tipo de monstro é você? Quanto tempo faz? Há quanto tempo estamos aqui?
( O soldado sai desesperado pega a lata de tinta e picha o muro:)
ENSAIO DE UMA NOTA DE JORNAL: A GUERRA TRANSFORMA HOMENS EM MONTROS.
(as luzez se apagam e a musica do final será exercito de um homem só do E.H. http://www.youtube.com/watch?v=amssdtzcXbY)