segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O médico e o monstro


 “agora sua imaginação também estava envolvida, ou melhor, escravizada… a figura nessas fantasias assombrou o advogado a noite toda; e se chegava a adormecer, ela surgia rapidamente, movendo-se de um modo furtivo… ou rapidamente, muito rápido, a ponto de rodopiar, através dos vastos labirintos da cidade, a cada esquina pisoteando uma criança e deixando-a a gritar. E ainda que a figura não tivesse rosto pelo qual pudesse ser reconhecido, pois mesmo em seus sonhos ele não adquirira um fisionomia, ou quando o possuía era embaçado e se evaporava diante de seus olhos; e assim era que se espalhava e crescia na mente do advogado, com uma força singular, uma curiosidade quase exagerada de contemplar as feições do verdadeiro Senhor Hyde”.
                                                                                       (Fragmento da obra: O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson)




Quem sabe toda essa história tenha um propósito que vá além da passagem, talvez o rio corra pra curso do entendimento.... Não quero me acomodar com as mesmices do dia a dia, com os cavalos que galopam a pulso frouxo, já que a humanidade nasceu para realizar os grandes feitos e chorar as grandes tragédias. Quero a minha cota.
Não tenho compreensão das minhas dimensões internas porque são extensas demais, Não sobrevivo com pouco sentimento, com pouca emoção, não posso ser comprimido...se não acabo virando um buraco negro e absorvendo tudo que se aproxima.  Como pode caber tanta solidão no mundo? mesmo com todos os oceanos que guardo dentro de mim. Pra dentro... sou país sem fronteira, terra sem lei, mundo de ninguém... Reino sobre mim, e sou meu próprio subversivo, autor de minhas revoluções... tudo que calo eclode  por dentro, vulcanizo minhas emoções, sou agente constante do meu próprio caos.
A alta percepção das coisas é o que me atormenta, carrego comigo o pesar que é a consciência e a reflexão dos tempos idos. Ah... trago em mim o mal do já ter sido e não ser mais, e o mel do poder ser,  do dever ser.
Queria eu conseguir equiparar o médico ao monstro. Bom seria se o médico não o quisesse envenenar a fera com lucidez, e o monstro por sua vez não precisasse subjugar o ciêntista a toda sua fúria.  Mas há quem diga que o médico no fundo quer proteger o monstro dos perigos que o mundo lhe oferece.. proteger a criatura feroz e incompreendida, que por ironia é o único que lhe entende.  Já o monstro ama o médico ao ponto de saber que é ele (a fera), o alterego daquele homem pacato, pouco percebido, depressivo há quem o mundo faz tanto mal.
Mas no fim... o problema nunca se soluciona... não há como equivaler... seja por amor, seja pela força... no fim... apenas um dos dois deve colocar a coroa e velar o luto do outro. O paradoxo faz parte da vida, da minha natureza. Sou todo conflito.

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