segunda-feira, 30 de março de 2015

O sertanejo

Quem era aquele homem?
O que tinha por detrás daquele sofrimento,
Mulato matuto, pele rachada de sol,
Enxada debaixo do queixo,
Isca de peixe no anzol,
Faltava-lhe água
Que lhe renovasse a esperança

Com olhos incrédulos,
Olhava a terra que nunca foi sua,
O carro que nunca foi seu,
A mulher que nunca veria nua...

Com as mãos calejadas colhia o trigo,
Caçava abrigo, obtinha o não...
-Quantos mulatos existem por aí, querendo o seu ganha pão...
Dizia o patrão toda vez que se falava em aumento,
-faço por dois, ganho por meio!
Retrucava o moreno...

Voltava ao trabalho,
Enquanto a pele ardia ao sol...
Rezava pelo bom tempo...
Caso não viesse logo a chuva,
A safra não duraria,
E mais cedo do que se esperava,
Voltaria a bater na porta o sofrimento.

No fim do dia, chegava em casa
E a casa refletia a vida que o trabalhador levava...
Feita com as próprias mãos,
Parede de Adobo, teto de palha...
Lá fora um cercadinho,
Onde dividia com as galinhas as migalhas que o alimentava...

Deitava toda noite, fechava os olhos e não sonhava
Esperava raiar o dia, ao ver a luz se levantava,
Lustrava a enxada como prata,
Seguia a Pé para seu ofício,
Sabia que não tinha nuvens seria um dia difícil,

Andava por entre as cercas a se confundir com gado,
Não fosse pelo preço da carne,
Pois seu quilo era mais barato,

Mas nada é tão ruim que não possa piorar...
Chegando no trabalho, viu que tinha que voltar,
A colheita se encerrara, e não tinham mais no que lhe usar...
Pegou o pagamento e foi embora,
Depois de tanto tempo, aquele homem seco se pôs a chorar...

Foi pra casa e refletiu,
Resolveu viver um velho sonho,
Conhecer o resto de Brasil,
Saiu do sertão com os romeiros,
Adiante pediu carona com os caminhoneiros
Dormiu em posto, e logo viu o rio de janeiro.

Ficou Abismado, de longe viu o cristo e o corcovado,
Andou na lagoa rodrigo de Freitas,
Nunca tinha visto um povo tão avexado,
- Sai da frente desgraçado!
Nunca tinha visto de peixe,
O tanto que viu de carro

Ao cair da noite percebeu que não tinha pensado direito,
Não tinha dinheiro,
Estava desamparado,
Dormiu na praia,
Quase acordou afogado.

Já eram lá pelas tantas,
A fome o atormentava,
Quis pedir no sinal,
As crianças o enxotaram...

Lá tinha de tudo...
carro, prédio, muro,
Tinha água, gente e ele (O Matuto),
Mas nada era seu...

Via água e não bebia,
Via comida e não comia,
Via coisas que não podia...

Ficou assutado, ao atravessar a rua,
Foi atingido por um carro,
Enquanto seu sangue escorria,
Via o Cristo e lhe pediu um abraço,
Disse que o perdoava, por ter lhe dado uma vida tão sofrida,
Onde lhe faltou tudo, desde os pais até a comida...
E que não pedia muito,
Apenas sentar na mesa,
Onde os santos ceiam juntos.



Na brevidade do meu tempo

O fim e o recomeço são partes da mesma caminhada... Morremos aos poucos, morremos de medo e nascemos em segredo toda vez que raia o dia. Ando por aí, cheio de silêncios,.. tentando adormecer a fera que mora em mim, e com quem constantemente me digladio.
Ontem era o moço, o início... Hoje é o velho, poço sem fundo, submerso em vazios. Mas a verdade não me deixa mentir, levo a vida que quero e deixo que ela faça o que quiser de mim. Não faço planos, não traço metas, não me dou aos que me querem e não lhes cobro nada por isso, vivo a vida correndo riscos.
Como serei lembrado? provavelmente não serei... todo o rio corre pro mar, e todo mar acaba em esquecimento, o amor dura o tempo que tem que durar, às vezes não mais que um momento, ainda assim, face a todo esquecimento, há sempre  uma necessidade constante de perseguir tuas curvas e amar-te na brevidade do meu tempo.



terça-feira, 24 de março de 2015

Eu te amo tanto...

Desculpa se eu tô te incomodando de novo, eu sei que pedir desculpas pelo eu sou não é o bastante, mas também não é fácil ter que me afastar de você por saber que eu não sou bom o suficiente, que não o sou o cara certo.
De longe eu fico vendo seu sorriso em todas as fotos e pensando como são longos esses dias, como é difícil te procurar em todos os lugares que vou e você não está. Ontem eu escutei aquela música nossa, me dá uma paz... sozinho no quarto que já foi nosso sonhei  como seria maravilhoso ter passado o resto da vida com você. Talvez você não entenda esse meu jeito, mas tento te proteger de tudo, até de mim, me afastar foi a maior prova de amor que pude dar... tenho muitas cicatrizes, e mesmo hoje ainda existem noites em que acordo gritando.
Obrigado, por ter tentado, por ter me amado o quanto deu, quase em todas as vezes mais do que eu merecia. É complicado, mas sei que nessa vida, ninguém vai te amar mais do que amei. E mesmo assim, eu espero que você encontre alguém que te ame o suficiente pra te fazer feliz, viver é sempre por um triz.
Talvez eu te encontre por aí, esse mudo gire e nos coloque cara a cara, eu sei que se esse dia chegar vai ser difícil me segurar, pode ser que te diga tudo que trago guardado no peito,  que esteja escrito, que você me deixe deitar no teu colo e me leve pra longe,  me salve de mim. Se há um tempo certo pra tudo, vai ter um tempo pra gente, e eu te amo tanto...

segunda-feira, 23 de março de 2015

Lá...no vazio

...É que pra mim o tempo passou rápido demais,  todos os dias em que me olhava no espelho não esperava que algo mudasse, ao contrário, pretendia mesmo que alguma coisa permanecesse, que no meio de toda essa inconstância, em algum ponto houvesse a segurança  de uma flor perdida entre prédios de concretos, uma pitada de arte dentro vida, de beleza no meio do negro asfalto.
"Experimentar o experimental..." dizia Waly Salomão... segui ao pé da letra, experimentei a vida... a vida inteira experimentei... não há nada mais bonito que os sonhos da juventude, onde todas as coisas são possíveis, onde distâncias indescritíveis  são percorridas, os amores são provados e a revolução é feita nos muros, há mais poesia...o Infinito cabe na palma da mão... Mas também, não há nada pior do que envelhecer, não há pior do que ter sonhos e deixá-los pelo caminho. É como abandonar os pedaços que nos compõem. 
De certo, entre as trincheiras e os canhões troando, existe muito mais sonhos do que sangue, mas nos deixamos enveredar pela ambição de sermos o que não somos, o essencial fica pelo caminho, porque  embora mais pesado, o desnecessário brilha como joia e nos esquecemos da máxima que:"nem tudo que reluz é ouro."
Por ter pressa, me atirei de cabeça, me dei mal, me dei bem, tive minhas perdas e vitórias... E apesar de ter de aprender a conviver com a falta, era justamente ela, (a falta),o que me movia, que me levava a novos caminhos, a novos amores, a novos dias... é justamente nesse vazio que está a minha singularidade, é nele que me expando, que viro universo infinito... É nele que meus amores são maiores é lá que minhas dores moram, lá... onde é difícil de chegar, lá onde muitos se perdem... onde eu existo.

terça-feira, 10 de março de 2015

Sensações

Ando mesmo cheio de vazios apesar das entregas, depois do salto esperando as asas, tudo que obtenho é a queda. Culpa do deslize, culpa do desnível, culpa do destino... agora pouco importa de quem é a culpa, todas as culpas do mundo são minhas.
Hoje acordei mesmo muito triste, querendo entender porque sou como sou, mas talvez isso não seja uma questão de entendimento, mas sim de aceitação, o que torna tudo ainda mais difícil. Ontem eu era jovem e cheio de sonhos, os amores me pareciam possíveis, galopava o mundo e todos os sonhos encontravam-se na palma de minhas mãos. Mas aí veio o mau tempo e fui vencido... hoje do trago comigo o peso do mundo onde mal sobrevivo.
Talvez tudo seja mesmo assim, e eu esteja destinado a sair de certas coisas, mesmo que certas coisas nunca saiam de mim. É um preço muito alto o que carrego, por me vestir dos tesouros os quais me entrego... Ei de caminhar cego, porém belo, construir castelos onde viverei só, provar de todos os sabores, conhecer todos os amores, mas vê-los envelhecerem sem mim.
Agora toca aquela canção, fecho os olhos... deixo ela me levar pra longe... deixo o corpo ir... a mente se esquecer das possibilidades de felicidade. Como seria bom se o tempo parasse, e eu fosse o primeiro homem a não ter passado nem futuro, apenas um homem na plenitude do verbo ser... seria triste e ao mesmo tempo leve... seria apenas ser... queimar na fogueira das vaidades, arder na chama das sensações.

sexta-feira, 6 de março de 2015

versos obscuros

Olhei no fundo dos olhos pra falar
E calei...
Fechei os olhos pra falar...
Hesitei...
Existem mil formas pra amar,
Talvez...
As coisas  duram o tempo que tem que durar...
Disse ela antes que eu partisse...
Disse ela antes que quebrasse seu coração em mil pedaços




terça-feira, 3 de março de 2015

Verso

Deixa o tempo parar e pairar sobre mim...
Do futuro nada sei,
Dos teus olhos sei menos ainda...
Doce incerteza do porvir...