Quem era aquele homem?
O que tinha por detrás daquele sofrimento,
Mulato matuto, pele rachada de sol,
Enxada debaixo do queixo,
Isca de peixe no anzol,
Faltava-lhe água
Que lhe renovasse a esperança
Com olhos incrédulos,
Olhava a terra que nunca foi sua,
O carro que nunca foi seu,
A mulher que nunca veria nua...
Com as mãos calejadas colhia o trigo,
Caçava abrigo, obtinha o não...
-Quantos mulatos existem por aí, querendo o seu ganha pão...
Dizia o patrão toda vez que se falava em aumento,
-faço por dois, ganho por meio!
Retrucava o moreno...
Voltava ao trabalho,
Enquanto a pele ardia ao sol...
Rezava pelo bom tempo...
Caso não viesse logo a chuva,
A safra não duraria,
E mais cedo do que se esperava,
Voltaria a bater na porta o sofrimento.
No fim do dia, chegava em casa
E a casa refletia a vida que o trabalhador levava...
Feita com as próprias mãos,
Parede de Adobo, teto de palha...
Lá fora um cercadinho,
Onde dividia com as galinhas as migalhas que o alimentava...
Deitava toda noite, fechava os olhos e não sonhava
Esperava raiar o dia, ao ver a luz se levantava,
Lustrava a enxada como prata,
Seguia a Pé para seu ofício,
Sabia que não tinha nuvens seria um dia difícil,
Andava por entre as cercas a se confundir com gado,
Não fosse pelo preço da carne,
Pois seu quilo era mais barato,
Mas nada é tão ruim que não possa piorar...
Chegando no trabalho, viu que tinha que voltar,
A colheita se encerrara, e não tinham mais no que lhe usar...
Pegou o pagamento e foi embora,
Depois de tanto tempo, aquele homem seco se pôs a chorar...
Foi pra casa e refletiu,
Resolveu viver um velho sonho,
Conhecer o resto de Brasil,
Saiu do sertão com os romeiros,
Adiante pediu carona com os caminhoneiros
Dormiu em posto, e logo viu o rio de janeiro.
Ficou Abismado, de longe viu o cristo e o corcovado,
Andou na lagoa rodrigo de Freitas,
Nunca tinha visto um povo tão avexado,
- Sai da frente desgraçado!
Nunca tinha visto de peixe,
O tanto que viu de carro
Ao cair da noite percebeu que não tinha pensado direito,
Não tinha dinheiro,
Estava desamparado,
Dormiu na praia,
Quase acordou afogado.
Já eram lá pelas tantas,
A fome o atormentava,
Quis pedir no sinal,
As crianças o enxotaram...
Lá tinha de tudo...
carro, prédio, muro,
Tinha água, gente e ele (O Matuto),
Mas nada era seu...
Via água e não bebia,
Via comida e não comia,
Via coisas que não podia...
Ficou assutado, ao atravessar a rua,
Foi atingido por um carro,
Enquanto seu sangue escorria,
Via o Cristo e lhe pediu um abraço,
Disse que o perdoava, por ter lhe dado uma vida tão sofrida,
Onde lhe faltou tudo, desde os pais até a comida...
E que não pedia muito,
Apenas sentar na mesa,
Onde os santos ceiam juntos.
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