" esse texto é um clássico dos meus, um dos que mais gostei de ter feito, tem muito tempo que fiz... em 2005, na velha agrotécnica, lembro que colei nas paredes. Na época tinha um significado que, hoje, por mais que me esforce, não lembro... enfim... cheira a all-star e jeans resgado... como naquela época"
O Rato apareceu
Num Ângulo da sala,
(...)
? Que sabe esse rato de mim
E esse homem e essa mulher
Sabem pouco mais que o rato.
( Murilo Mendes)
Quando a minha alma voltou ao meu corpo, era por volta das 3:30 da madrugada. Uma falta de ar me tomara o peito subitamente. Então, me levantei ainda sem ar. Estava arquejando. Olhei para cada canto do quarto. tudo estava calmo. A televisão agora chiava. Já não passava programas infantis com crianças adestradas, nem telejornais de direita que se restringem a falar do óbvio e dizem apenas que o país vai mal.
Então eu desliguei a tv, arrastando a tomada com a voracidade de um animal recentemente preso ao cativeiro. A casa agora de um todo se fez escura. Uma escuridão medonha. Digna da escuridão que abrigava as cavernas que nós homens habitávamos enquanto primitivos. Mas, quem disse que deixamos de ser primitivos? Talvez essa noite "contemporânea" fosse mais fria e perigosa que as noites primevas. Talvez minha casa fosse mais fria e obscura que as cavernas por nós homens habitadas enquanto simples primitivos. Seria o lar perfeito para um primata depressivo cujo o clã foi massacrado pelo evolucionismo científico de Darwin.
Debatendo-me pelas paredes, me dirijo até a sala. A essa altura o meu sono já tinha ido pra puta que o pariu! com o poder que a tecnologia me oferece, tentando imitar a deus , fiz com que houvesse luz na minha sala que até a pouco era treva. E o espirito de Deus ou sei lá de quem, correu sobre minha mesa que, por sinal era o Iraque depois dos americanos, um inferno.
Eu estava escrevendo um livro. Era um livro depressivo. Eram papéis e canetas espalhadas por toda parte: Frases de efeito, textos incompletos, observações que nunca viriam a ser lidas. Era um mundo em seu caos, um livro em construção.
Em meio ao meu emaranhado de pensamentos algo roubou a minha atenção. Era um barulho. Não, era muito mais insignificante. Era um ruido, ruido de ratos, ratos no meu sotão. Eu odeio ratos, levam a vida no submundo, mas quando necessário andam sob o sol, se misturando à sociedade fazendo o seu contrabando ilegal de podridões dentro de nossas casas, bem debaixo de nossos narizes, nós nem percebemos isso. A noite eles são piores, caminham silenciosamente quase imperceptíveis. Eu não os via, mas minha mente os faziam grandes e perigosos. Uma grande sociedade organizada, capaz de destruir o meu mundo. Ratos intelectuais que se aproveitavam do meu sono, da minha fraqueza de humano miserável, para realizar seu contrabando ilegal de podridões. Muita gente pensa em salvar o mundo da fúria humana, mas não consegue nem retirar os ratos de sua própria casa.
Ao terminar de refletir, o sol já me tangia para o quarto. eu havia virado a noite pensando em como me livrar dos ratos. Deitei-me decidido a comprar algumas ratoeiras. Antes de dormir, ouvi pela última vez o ruído de ratos, ratos no sotão.
ATT: Leo Rocha
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